Ficantes...
Aí Dany, estava pesquisando para a minha monografia e achei esse texto que tem a ver com o que vc escreveu abaixo. (www.nominimo.com.br)
O dia do ficante fixo
A conjugação do verbo "ficar" para designar relacionamentos afetivos é só um dos indicadores da volatilidade dos relaciomentos afetivos. O início e o fim do casamento de Ronaldinho e Cicarelli, idem. Ficar é definição que se opõe ao "estar junto", este sim um compromisso que promete continuidade. Mas o verbo ficar tem sido empregado associado ao famigerado gerúndio e o mais comum é ouvir "Estou ficando", o que também seria indicação de continuidade. A grande diferença seria que o "estar junto" supõe um compromisso prévio dos dois, enquanto o "estou ficando" adquire um tom de relação descartável. Estou ficando, mas posso deixar de ficar a qualquer momento. As comemorações do Dia dos Namorados interpela esse tipo de relacionamento ficante e o empurra para uma definição. Comprar um presente significaria, por exemplo, mudar o status da relação? Ou, numa noção ampliada do conceito de "namorados", todos os casais deveriam celebrar seus afetos neste 12 de junho?
O que se vê na publicidade é a idéia de ampliação do conceito de namorado. Vale qualquer casal que pretenda comemorar o seu amor. Não que haja algum tipo de liberalidade na propaganda, mas quanto mais gente for impregnado pela idéia de comprar um presente, mais lucro. Essa é uma estranha conexão entre a lógica de mercado e as mudanças no comportamento da sociedade contemporânea. Uma das características positivas da onda do "ficante fixo" é a flexibilização de um padrão que já foi extraordinariamente rigoroso. Havia um tempo em que só se admitia poucos tipos de estado civil: casado, solteiro ou viúvo. É verdade que em países muito próximos, como o Chile, por exemplo, os formulários de imigração ainda oferecem apenas estas alternativas aos visitantes, já que o país não tem lei do divórcio.
A entrada em cena da categoria de "separado" foi um avanço formal da década de 1980 e de lá para cá, vale tudo. Quando a onda de divórcios começou, ouvia-se com freqüência reclamações sobre a velocidade com que os casamentos acabavam. E olha que nem faz tanto tempo assim. Hoje, muitas vezes o que causa espanto é a velocidade com que os casamentos começam. Casamento, na verdade, é uma palavra velha para um tipo de relacionamento que pretende ser definido "monogamia estável" (embora também exista a categoria "casamento aberto", no qual o critério monogamia fica suspenso). Morar junto é sinônimo de casar, mas para muitos casais, casar não é sinônimo de morar junto.
Nesse saudável vale tudo das relações afetivas, já quem enxergue caos, libertinagem, desespero. Falta memória aos críticos que se esquecem que não vai longe o tempo em que os casamentos eram escolhidos pelas famílias, e o namoro era uma etapa totalmente dispensável. Até outro dia, a mulher que não era casada era chamada concubina, um quase-sinônimo para prostituta. A palavra era utilizada por juízes em decisões sobre destino dos bens em caso de morte do conjuge. Hoje, a lei da união estável implica os casais em regras de comunhão de bens antes só acessíveis aos que se casavam. Ou seja, assinar ou não um contrato de casamento tornou-se irrelevante.
Nesse cenário de tantas transformações, a lei da união estável, que regulamenta configura para mulher um lugar já nasceu velha. Regula a união estável. Até o "ficar" já foi parar na lei. Na semana passada, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que basta a prova de relacionamento casual e de outros indícios como a recusa sistemática do pretenso pai em se submeter ao exame de DNA para garantir ao filho o direito de incluir o nome do pai em seu registro de nascimento. A ação de investigação de paternidade que corre em Porto Velho permiitiu ao filho incluir o nome do pai na certidão de nascimento. É o sexo casual, aquele no qual se pretende não ter que telefonar no dia seguinte, sendo regulamentado.
No Dia dos Namorados, o mercado cada vez mais celebra todas as possibilidades e arranjos amorosos com os quais se busca o amor, e com isso espera vender mais presentes. O estado regulamenta arranjos afetivos, embora se recuse a reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Na vida real, os "ficantes fixos" experimentam as sucessivas monogamias estáveis nas quais pretendem encontrar conforto afetivo e felicidade, se preferência sem um grau de envolvimento que ultrapasse a categoria "ficante". Este, mesmo que seja fixo, é menos comprometedor do que o namorado.
Em "Amor líquido", seu mais recente livro lançado no Brasil ano passado, o sociólogo Zigmunt Bauman detecta uma lógica capitalista a reger inclusive as relações amorosas. Ele mostra como acreditamos que, ao adotar como prática o entrar e sair de redes, não aceitamos exigências que capturem o indivíduo, indisponível para o "investimento afetivo". O problema é que quando se trata de relações amorosas, o sujeito quer o que não existe em nenhum mercado: baixo investimento, alto retorno.
